quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A parábola da salvação - C. H. Spurgeon

 
Num tempo, a Misericórdia estava sentada em seu trono, que era branco como a neve, rodeada de exércitos de amor. Um pecador, a quem Misericórdia se havia proposto salvar, foi trazido à sua presença. O arauto tocou a trombeta, e depois de três chamados, com voz mui alta, disse: “Ó céus, terra e inferno, tenho vos convocado neste dia para que venham diante do trono de Misericórdia, e declarem por que este pecador não deve ser salvo”. Ali estava o pecador, tremendo de medo; ele sabia que havia uma multidão de oponentes, que queriam abrir espaço para entrar no salão de Misericórdia, e com os olhos cheios de ira, diriam: “Ele não deve e não escapará; ele deve se perder!”.

Soa a trombeta e Misericórdia estava sentada placidamente em seu trono até que entrou um com semblante de fogo; sua cabeça estava coberta de luz; falava com voz de trovão, e de seus olhos saiam raios. “Quem és tu?”, perguntou Misericórdia. Ele respondeu: “Eu sou a Lei; a Lei de Deus”. “E que tens a comentar?” “Tenho que dizer isto”, e levantou uma tábua de pedra, escrita dos dois lados; “estes dez mandamentos têm sido quebrados por este miserável. Eu demando seu sangue; pois está escrito: ‘A alma que pecar, esta morrerá’. Assim, pois, pereça ele, ou então perecerá a justiça”. O miserável se enche de tremor, seus joelhos se batem, a medula dos seus ossos se derrete internamente, como se fosse derretida pelo fogo, e treme com muito terror. Já parecia ver o raio lançado contra ele, penetrando sua alma, e o inferno aberto em sua imaginação diante dele, e se considerou perdido ali para sempre. Porém, Misericórdia sorriu e disse: “Lei, eu te responderei. Este miserável merece morrer; a justiça exige que ele pereça; eu concedo tua exigência”. Ó, como treme o pecador! “Porém, há um que veio comigo no dia de hoje, meu Rei, meu Senhor; seu nome é Jesus; ele te dirá como pode ser paga a dívida para que o pecador seja livre”. Então Jesus falou e disse: “Ó Misericórdia, farei o que me pedes. Toma-me, Lei. Põe-me no horto. Faz-me suar gotas de sangue. Então, crava-me num madeiro. Açoita minhas costas antes que me mates. Levanta-me na cruz. Que o sangue das minhas mãos e dos meus pés corra em abundância. Desça-me ao sepulcro. Deixe-me pagar tudo o que deve o pecador. Eu morrerei em seu lugar”. E a Lei saiu e açoitou ao Salvador, o cravou na cruz, e regressou com seu rosto radiante de satisfação, e parou diante do trono da Misericórdia, e Misericórdia perguntou: “Lei, que tens que adicionar agora?” “Nada”, respondeu, “formoso anjo, nada”. “Como!? Nenhum destes mandamentos está contra ele?” “Não, nenhum. Jesus, seu substituto, cumpriu todos eles. Ele pagou a pena por sua desobediência, e agora, em vez de sua condenação, exijo, como uma dívida de justiça, que o pecador seja absolvido”. “Permanece aqui”, disse Misericórdia, “senta-se em meu trono. Tu e eu enviaremos agora uma nova intimação”.
A trombeta soou outra vez: “venham aqui, todos os que tenham algo a dizer contra este pecador, para que não seja absolvido”. E se levanta outro, um que freqüentemente afligiu ao pecador, um que tinha uma voz não tão alta como a da Lei, porém penetrante e estremecedora, uma voz cujos sussurros eram tão cortantes como uma adaga. “Quem és tu?”, perguntou Misericórdia. “Eu sou a Consciência; este pecador deve ser castigado; ele tem feito muito contra a lei de Deus e deve ser castigado; eu o exilo; e não permitirei descansar até que seja castigado, e não me deterei ali, pois o seguirei inclusive até ao sepulcro, e o perseguirei mais além da morte com angústias indizíveis”. “Não”, respondeu Misericórdia, “escuta-me”, e fazendo uma pausa por um momento, tomou um maço de hissopo e limpou com sangue a Consciência, dizendo: “Escuta-me, Consciência, ‘o sangue de Jesus, o Filho de Deus, nos limpa de todo pecado’. Agora, tens algo a dizer?” “Não”, respondeu Consciência, “nada”.
“Coberta está sua injustiça;
Ele está livre de condenação”
“De agora em diante, já não lhe atormentarei. Serei uma boa consciência para ele, por meio do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo”.
A trombeta soou uma terceira vez, e uivando desde as cavernas mais profundas, aproximou-se um diabo repugnante, com ódio em seus olhos, e uma majestade infernal em seu semblante. Perguntou-se-lhe: “Tens algo contra esse pecador?”. “Sim”, respondeu, “o tenho; ele tem feito uma aliança com o inferno, e um pacto com a sepultura, e aqui está, firmado por sua própria mão. Ele pediu a Deus que destruísse sua alma na bebedice, e fez votos que nunca se voltaria para Deus; olhem, aqui está seu pacto com o inferno!”. “Vejamos”, disse Misericórdia; e lhe foi entregue, enquanto o diabo mirava com olhar sombrio ao pecador, e lhe atravessava com suas sombrias olhadelas. “Ah!”, disse Misericórdia, “porém, este homem não tinha o direito de firmar a escritura; um homem não pode vender a propriedade alheia. Este homem foi comprado e pago de antemão; ele não se pertencia; o pacto com a morte está anulado, e a aliança com o inferno feita em pedaços. Segue teu caminho, Satanás”. “Não”, disse, uivando de novo, “tenho algo mais a adicionar: esse homem sempre foi meu amigo; sempre escutou minhas insinuações; zombava do evangelho; desdenhava da majestade do céu; acaso, receberá o perdão, enquanto eu tenho que continuar na minha guarida infernal, para suportar para sempre a pena da minha culpa?” Misericórdia respondeu: “Arreda-te, demônio; estas coisas ele fez nos dias anteriores à sua regeneração; mas a palavra ‘não obstante’ (Sl.106.8) as apagou. Vai-te para o teu inferno, e considera isto como outro açoite que se te dá. O pecador será perdoado, porém tu nunca o serás, diabo traidor!”.
E logo Misericórdia se voltou ao pecador sorrindo e disse: “Pecador, a trombeta deve soar pela última vez!”. Outra vez foi tocada, e ninguém respondeu. Então se levantou o pecador, e Misericórdia disse: “Pecador, faz tu mesmo a pergunta: pergunta ao céu, à terra e ao inferno, pergunta se alguém pode te condenar”. E o pecador, permanecendo de pé, com uma voz alta e ousada perguntou: “Quem acusará os escolhidos de Deus?”. E olhou para o inferno, e Satanás estava ali, mordendo suas cadeias de ferro; e olhou para a terra e ela estava silenciosa; e na majestade da fé, o pecador subiu ao céu mesmo, e perguntou: “Quem acusará os escolhidos de Deus? Deus?”. E veio a resposta: “Não, ele justifica”. “Cristo?” E foi sussurrado docemente: “Não, ele morreu”. Então, olhando ao seu redor, o pecador perguntou com alegria: “Quem me separará do amor de Deus, que está em Cristo Jesus nosso Senhor?” E o pecador que estava condenado antes regressou à Misericórdia e permaneceu prostrado aos seus pés, e fez votos de ser seu para sempre, se ela o guardasse até ao fim, e o convertesse no que ela desejava que fosse. Então, já não mais soou a trombeta. Os anjos se regozijaram, e o céu se alegrou, pois o pecador tinha sido salvo.

Retirado do link: http://tiagolinno.wordpress.com/2011/06/01/a-parabola-da-salvacao-c-h-spurgeon/

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